quinta-feira, 12 de março de 2009

Artigo - Maria Roussal

O Fosso entre a Escola e a Universidade
Um país depende muito do nível de educação e da ambição da sua juventude. Se o nível é elevado, há maior capacidade de inovar, criar riqueza e desenvolver o país por parte dos estudantes que saem das Universidades. Tudo isto implica a existência de Universidades e cursos exigentes. E implica também que existam escolas secundárias de grande qualidade. Em Portugal, o nível do ensino nas melhores universidades tem vindo a aumentar todos os anos. O das escolas secundárias nem por isso. Para um aluno no final do ensino secundário, este fosso entre a escola e a universidade é altamente preocupante.
Portugal quer aparecer mais no mundo da Ciência, Tecnologia e Inovação. Só assim será possível o desenvolvimento económico do país. Thomas Friedman, colunista do New York Times, defende que o mundo ficou mais plano graças à globalização e que para inovar, já não é necessário mudar de sítio. Richard Florida, Professor de Negócios e Criatividade na Joseph L. Rotman Business School da Universidade de Toronto, diz que não é bem assim. Mesmo que não se tenha que emigrar para inovar, Florida defende que a inovação, o crescimento económico e a prosperidade acontecem em sítios onde a concentração de talentos criativos é muito elevada. O mundo da inovação não é plano. É pontiagudo! Por isso mesmo, Portugal ainda não aparece no mapa dos picos científicos e tecnológicos mundiais. Não aparece, mas quer aparecer.
No Porto, os três grandes institutos na área da Bio-Ciência – o Instituto da Biologia Molecular, o de Engenharia Biomédica e o de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto – fundiram-se e deram origem ao I3S (Instituto de Investigação e Inovação em Saúde), onde irão trabalhar mais de 600 cientistas. A criação do I3S despertou o interesse da comunidade científica na Galiza que mostrou interesse em associar-se a este novo instituto. A Universidade Católica Portuguesa, a Universidade Nova de Lisboa e o Massachusetts Institute of Technology (MIT) criaram o “Lisbon MBA”, com o duplo objectivo de atrair para Lisboa excelentes alunos internacionais e formar gestores de topo em Portugal. Este MBA terá aulas em inglês, arrancará em Janeiro de 2009 e fará de Lisboa a primeira cidade europeia a ter um programa de formação de executivos empresariais em parceria com a Sloan Management School do MIT, a 7ª melhor do mundo na avaliação do Financial Times (http://rankings.ft.com/global-mba-rankings) Mais recentemente, cinco universidades – Porto, Aveiro, Católica (Porto), Minho e Coimbra – juntaram-se e lançaram o “Magellan MBA.” Tal como o “Lisboa MBA,” este programa será também leccionado em inglês e tem parcerias com a London Business School e com o Instituto de Empresa de Espanha, a segunda e a oitava escola mundiais na avaliação do Financial Times.
O que é que estes dois exemplos dos mundos da investigação científica e da gestão mostram? Acima de tudo que Portugal quer entrar num mundo mais competitivo e inovador, mas também quer que este mundo entre em Portugal. E que outra forma há de atrair a inovação e o talento a nível mundial para o país do que criar condições para que isto aconteça?
Foi isso que a Faculdade de Direito da Universidade Católica fez ao criar um curso de International Trade and Business Law leccionado em inglês, ao criar um mestrado em Direito em inglês e ao introduzir na licenciatura em Direito algumas cadeiras também leccionadas nesta língua. Como defende o Professor Luís Fábrica, no Público (“Inglês nas Faculdades de Direito?”, 14 de Dezembro de 2007), “Decerto que o tronco curricular da licenciatura em Direito é e continuará a ser formado por cadeiras onde se labora sobre o ordenamento jurídico nacional e tendo o português como a língua de trabalho (…) mas existe seguramente cada vez mais lugar para mestrados centrados em temáticas internacionais ou transnacionais, em que a produção científica portuguesa é reduzida e o inglês se assume espontaneamente como a língua de trabalho por excelência (…)”.
E porquê? Porque, ainda segundo o Prof. Luís Fábrica a globalização é uma realidade e “(…) a partir de uma certa dimensão, os negócios serão feitos em inglês e com recurso a regimes e institutos jurídicos de direito transnacional, com forte influência anglo-saxónica.” Além disso, ao leccionar mais em inglês, a Universidade Católica consegue contratar professores estrangeiros muito bons, que podem leccionar na actual língua franca mundial. Atrás dos melhores professores, vêm os melhores alunos. O resultado final deste processo serão cursos melhores para alunos portugueses e, pormenor importante, estrangeiros.
As escolas secundárias devem acompanhar o que está a acontecer nas Universidades. O problema é que isso não está a acontecer. Na primária, continua o colégio porque, “são tão pequeninos os meninos”. A comparação com outros países europeus, onde os “meninos pequeninos” são ensinados a ler, escrever e contar no colégio não nos é muito favorável.
No 1º e 2º ciclos, o programa aumenta um pouco e quando os alunos chegam ao 3º ciclo, cai um “balde” de matéria e de exigências completamente inesperado e aparentemente muito grande. Mas será mesmo assim? Claro que, comparativamente com o que tivemos antes, sim. E com o que vem depois na Universidade?
Um número muito elevado de alunos no final do ensino secundário não sabem o que é um ensaio, algo que lhes é pedido no primeiro mês de aulas na Universidade e horrorizam-se com cem páginas de matéria que sai para um teste. Na Universidade estão à nossa espera centenas de páginas por semana, muitas delas em inglês. Mesmo os bons alunos de Matemática no 12º ano estão a ter grande dificuldade em acompanhar o que os professores leccionam nas primeiras semanas de aulas de um curso universitário nas áreas da tecnologia e ciência.
O fosso entre o 12º ano e a Universidade é muito grande. E agora? O que fazer? Será que os alunos sabem da existência deste fosso? Quem é o responsável por esta situação? E é aqui que começa o silêncio; um silêncio muito incómodo para os alunos do ensino secundário.
Diário Insular 19 de Junho de 2008

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