segunda-feira, 16 de março de 2009

Discurso Jantar Memorial Sir Winston Churchill

Classe de 2009, República das Letras

Jantar Memorial Sir Winston Churchill
Clube de Ténis de Angra do Heroísmo, 7 de Março de 2009


Antes de mais, quero agradecer em nome de toda a República das Letras a presença do nosso convidado desta noite, o Major-General Rui Mora de Oliveira, comandante da Zona Aérea dos Açores e à Maria Noronha, a nossa mestre-de-cerimónias durante o ano lectivo de 2008/2009, pela organização do tradicional Jantar Memorial Sir Winston Churchill. Este ano coube me a honra de fazer o discurso o que me deixou bastante entusiasmada mas, cedo me apercebi de que a minha missão não era de todo fácil, principalmente depois de um belo jantar como o que acabamos de ter. Churchill tinha toda a razão quando disse “Só há duas coisas mais difíceis do que fazer um discurso depois do jantar: trepar uma parede que está inclinada para nós e tentar beijar uma mulher que está inclinada para longe de nós”.
O meu tema hoje é o primeiro discurso de Winston Churchill na Câmara dos Comuns como Primeiro-Ministro de Inglaterra no dia 13 de Maio de 1940.
Este tema levanta duas questões. A primeira é porquê Winston Churchill? Churchill, Primeiro-Ministro de Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial, representa ainda hoje, quase sessenta e cinco anos depois, um exemplo de liderança, um caso de audácia e perseverança, que tem inspirado imensa gente durante décadas. A minha geração não o conhece. Churchill aparece a preto e branco nos nossos livros de História mas nós nem sempre lemos livros de História hoje em dia. É pena. Churchill pode ter nascido em 1874 e morrido em 1965 – só o Major-General Mora de Oliveira e o Professor eram vivos nessa altura - mas continua a ser extremamente actual.
Aos 65 anos, Churchill era considerado pelo mundo político inglês um verdadeiro fracasso. Os erros sucessíveis que cometera durante a sua carreira e a sua idade avançada haviam contribuído para a sua reputação de homem acabado, irresponsável e pouco credível. Chegou mesmo a ser odiado, não só pelos Trabalhistas e Liberais, mas também pelos membros do seu próprio partido Conservador.
Em 1940, o destino trágico de Inglaterra e da maior parte da Europa parecia inevitável. O exército alemão parecia imparável: em França, o avanço era tal que provocava o pânico, não só em Paris, mas também aos Ingleses que viam as suas tropas serem massacradas em território francês. Esta situação finalmente despertou a elite política ingleses para a realidade que Churchill há muito anunciara. Todas estas previsões acertadas feitas durante os anos 30, fizeram com que começassem a considerar Churchill como o mais aconselhado para dirigir o país em tempos tão difíceis, ainda que alguns o considerassem, um aventureiro semi-americano, mancharia a exemplar reputação inglesa de outros tempos. Assim, Churchill chegou ao cargo de Primeiro-Ministro com uma tremenda tarefa entre mãos e o que o tornou tão legendário foi a forma como lidou com ela e como reverteu “a sua guerra” um pouco a seu favor.
Confrontado com um possível domínio alemão sobre toda a Europa, Churchill, enquanto primeiro-ministro, revelou, não só ser um líder nato, mas também demonstrou uma extraordinária capacidade de ver a longo prazo, isto é, para além de analisar de forma sensata uma das mais difíceis situações dos últimos séculos, foi capaz de prever as suas consequências e solucioná-la. Em 1940 a derrota de Inglaterra parecia inevitável. A liberdade e a democracia pareciam condenadas a desaparecer. Cinco anos depois, o Terceiro Reich nazi estava completamente destruído – Hitler suicidou-se em Berlim. Churchill desempenhou um papel muito importante nesta reviravolta.
Mas não foram apenas a sua determinação e coragem que transformaram Churchill num homem respeitado e honrado e isto leva-me à segunda questão – os discursos de Churchill. Churchill foi um aluno miserável em Harrow. As suas notas em Grego, Latim, Matemática e Francês foram sempre muito más. O que Churchill aprendeu em Harrow foi a ler e a escrever muito bem. Em 1940, escrever e falar foram armas decisivas para Churchill. Os seus discursos memoráveis, claros e objectivos, ainda que um pouco retóricos, permitiram ao povo britânico ultrapassar e vencer a Segunda Guerra Mundial, um período muito difícil, mantendo sempre a coesão espiritual: acreditavam em si e no seu líder. As palavras de Churchill foram muito importantes na afirmação da sua liderança política.
“Blood, toil, tears and sweat” – “sangue, trabalho árduo, lágrimas e suor” - foi tudo o que Churchill prometeu no seu primeiro discurso enquanto Primeiro-Ministro em Maio de 1940. Sangue, trabalho árduo, lágrimas e suor para quê? Para “vencer, vencer a todo o custo, vencer apesar de todos os medos, vencer por mais longo e difícil que seja o caminho”. Prometeu-lhes dedicação, devoção e segurança. Pediu coragem, força de vontade, persistência e, acima de tudo, união, união de todo o povo inglês, para que pudessem lutar juntos contra todas as adversidades. E foi com estes admiráveis discursos que Churchill levou a que, embora não de imediato, todos depositassem a sua confiança naquele que se tornara o único homem audaz e dedicado capaz de salvar a nação na sua hora mais difícil.
São estas atitudes frequentes em Portugal? Não, não vemos homens como Churchill nem discursos como os dele. Não vemos, mas devíamos. Deparamo-nos sim com líderes políticos apenas interessados em governar, aliciando os portugueses com soluções rápidas e fáceis mas pouco ou nada eficazes através de discursos vagos, pouco precisos, impessoais. O nosso país requer uma mudança de mentalidade. Precisamos de ser, mais sinceros, confiantes e persistentes, capazes de sobressair e lutar em situações difíceis tais como a que vivemos agora. Essa mudança tem que ser feita por todos, incluindo nós, jovens, que muitas vezes nos esquecemos que o futuro está próximo e que em breve as oportunidades e responsabilidades chegarão. Há, assim, a necessidade de desde cedo nos tornarmos, não só empreendedores, participando activamente no mundo que nos rodeia, mas também líderes, líderes da nossa própria vida, tomando as nossas próprias decisões, mesmo que muito difíceis, lutando para atingir os nossos objectivos, as nossas ambições, mesmo que isso implique fazer frente a tudo e todos, tal como Churchill fez.
E é isso no fundo o que a República das Letras nos ensina: a lutar contra a atitude negativista e descuidada que alastra por toda a nossa sociedade; a direccionar as nossas escolhas e atenções, sempre de olhos postos no futuro; a preparar-nos para o que não é novo para o mundo mas será novidade para nós. E, também, que é natural errar. Isso aprendemos com Churchill que, tão tarde, das cinzas construiu a sua figura imortal. O importante é nunca desistir e acreditar que conseguimos ser melhores, não melhores do que os outros, isso é relativo, mas melhores do que nós próprios.


Alice Pimentel

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